Artigo de opinião | Um balanço das atividades económicas no ano 2020

O ano que findou foi um dos anos mais difíceis e desafiantes da nossa história contemporânea, prevendo-se que
2021 continua a ser marcado por este contexto, pelo menos, até final do primeiro semestre.

A pandemia de Covid-19 para além do brutal impacto que tem vindo a registar ao nível sanitário, está a provocar uma recessão de uma dimensão sem precedentes na economia mundial, ameaçando transformar-se numa depressão se continuarmos a viver sucessivos períodos de retração e de confinamentos.

As empresas e os empresários têm sido verdadeiros heróis nacionais, aguentando estoicamente as enormes dificuldades com que se têm defrontado, demonstrando uma resiliência que, muitas vezes, vai para além da enorme
capacidade de adaptação e inovação que manifestam e do que financeiramente seria de esperar. É verdadeiramente heroico o seu desempenho e mereciam um reconhecimento e um apoio muito mais significativo da parte do Governo.

Num mundo cada vez mais volátil e imprevisível, o novo coronavírus moldou novos comportamentos que perdurarão, certamente, bem para além do contágio da doença, refletindo-se no nosso modo de vida, nos nossos consumos, na forma como nos relacionaremos com os outros e no nossos olhar sobre o futuro.

A este nível, é possível, já hoje, evidenciar um conjunto de novas tendências de consumo, que ainda não se sabe se vieram para ficar ou se funcionam apenas como escape às dificuldades impostas pela pandemia.

  • A “proximidade” ganhou grande preponderância no processo de escolha do local onde se efetuam as compras. Os consumidores estão a preferir o comércio de bairro, fazer as compras na sua comunidade local. Esta tendência também se verifica no setor do turismo, com um aumento muito significativo da procura pelo turismo doméstico.
  • Outra dimensão que ganhou uma nova relevância é a da “responsabilidade” dos consumidores, que estão a atribuir mais importância ao propósito das suas compras, procurando ajudar a criar impactos positivos nas comunidades locais e a preservar espaços tradicionais e autênticos.
  • As atividades ao “ar livre” também ganharam um novo impulso e funcionaram como uma solução de refúgio para que os consumidores pudessem continuar a fazer algumas das atividades que lhes dão prazer. Esplanadas,
    compras nas lojas de rua, atividades turísticas na natureza e turismo rural são exemplos claros da popularidade que as atividades ao livre ganharam junto dos consumidores.
  • A crise necessariamente trouxe consigo “novas preocupações” para os consumidores, nomeadamente as que se relacionam com as medidas de higiene e segurança e com as políticas de troca ou cancelamento.
  • Trouxe também “novas prioridades”, provocando alterações em tendência de consumo que se vinham a acentuar ao longo dos últimos anos. Diminuiu o consumo fora de casa, seja em restaurantes, viagens ou outras atividades de lazer, e aumentou o consumo de produtos alimentares, tecnológicos e outros produtos relacionados com a casa (decoração, jardim, bricolage).
  • Devido à volatilidade da evolução da pandemia, aumentou, também, de forma significativa a procura por compras e/ou reservas de “última hora”, de forma a ultrapassar as possíveis restrições à mobilidade e ao funcionamento das atividades económicas.

 

Ao nível do desempenho das atividades económicas também é possível, em jeito de balanço do ano, destacar algumas tendências:

  • Os territórios de baixa densidade, de uma forma geral, demonstraram uma maior resiliência à crise do que os urbanos. Na área de abrangência da ACB, por exemplo, os estabelecimentos de comércio e serviços do concelho de Braga registaram uma quebra das operações de pagamento eletrónico no ano de 2020 face a 2019 na ordem dos 10%, enquanto que nos concelhos de Amares (+4%), Vila Verde (+11%), Terras de Bouro (+14%) e Póvoa de Lanhoso (2%) se registou um crescimento no volume de transações. O concelho de Vieira do Minho foi a exceção a esta “regra”, tendo registado uma quebra de cerca de 19%, embora neste concelho a quebra se tenha
    iniciado uns meses antes do início da pandemia.
  • Os setores de atividade económica foram afetados pela crise com intensidades diferentes e de forma diversa. Os setores ligados ao turismo (alojamento, agências de viagens e animação turística) apresentam-se como os que sofreram maiores quebras, logo seguidos pelos setores da restauração e do comércio de produtos de moda e acessórios. Em contrapartida, o comércio de produtos alimentares, de produtos tecnológicos e de produtos para a casa, registou um crescimento face a igual período do ano transato.
  • No que concerne à evolução do desemprego, as empresas de Braga têm-se mostrado, também, bastante resilientes. Desde o início da pandemia até final de novembro de 2020, registam-se mais 1.357 desempregados, mas, em rigor, este aumento verificou-se logo nos primeiros dois meses da crise (março e abril), desde aí, mercê da aplicação das medidas públicas de apoio ao emprego que obrigam as empresas ao não despedimento de pessoal, os números estabilizaram.
  • Apesar da quebra de cerca de 8% nas exportações, de janeiro de 2020 até ao passado mês de outubro, o comportamento do setor exportador das empresas de Braga tem-se mantido relativamente resiliente à crise provocada pela pandemia. Este menor impacto deve-se, sobretudo, à especialização setorial das empresas exportadoras deste concelho assente na tecnologia, engenharia e construção, automação, metalomecânica e acessórios para a indústria automóvel, áreas que têm sido menos afetadas pela pandemia.
  • Finalmente, destaque para a diminuição, já previsível, de cerca de 16% no número de nascimentos de novas empresas durante o ano 2020, no distrito de Braga. Mais surpreendente é a diminuição verificada no número de encerramentos (-29%) e de insolvências (-1%), pese embora se anteveja que, em 2021, estes indicadores se venham a deteriorar, porque a tramitação neste tipo de processos é relativamente lenta.

– artigo de opinião do Diretor Geral da ACB, Rui Marques, no Jornal Correio do Minho